A Mulher que Tratava de Tudo: da Culpa à Inteireza
Um percurso íntimo sobre cuidado, maternidade, emancipação e a difícil aprendizagem de tornar-se inteira.
Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Adélia Prado
Nasci entre mulheres que sustentavam o mundo sem fazer alarde. Mulheres que tratavam de tudo. Cuidavam da casa, dos filhos, dos maridos, dos bichos, das plantações, dos doentes, dos mortos e dos vivos. Faziam caber o impossível dentro dos dias.
Foi com minha mãe, professora leiga do interior mineiro, que aprendi a força da palavra. Muito antes de conhecer universidades, teorias ou autores, aprendi a observar a vida pelos olhos de uma mulher que transformava dificuldades em caminhos e escassez em criação.
O cuidado de minha poesia aprendi foi de mãe, mulher de pôr reparo nas coisas, e de assuntar a vida. A brandura de minha fala na violência de meus ditos ganhei de mãe, mulher prenhe de dizeres, fecundados na boca do mundo. Foi de mãe todo o meu tesouro veio dela todo o meu ganho mulher sapiência, yabá, do fogo tirava água do pranto criava consolo. Foi de mãe esse meio riso dado para esconder alegria inteira e essa fé desconfiada, pois, quando se anda descalço cada dedo olha a estrada. Foi mãe que me descegou para os cantos milagreiros da vida apontando-me o fogo disfarçado em cinzas e a agulha do tempo movendo no palheiro. Foi mãe que me fez sentir as flores amassadas debaixo das pedras os corpos vazios rente às calçadas e me ensinou, insisto, foi ela a fazer da palavra artifício arte e ofício do meu canto da minha fala.Conceição Evaristo
As mulheres da minha infância carregavam uma sabedoria ancestral: sabiam ler os sinais do tempo, das pessoas e das ausências. Eram fortes. Mas também viviam aprisionadas por uma ordem silenciosa que lhes atribuía um destino quase único: casar, servir, cuidar e suportar.
Cresci acreditando que esse era o percurso natural da vida feminina. A boa mulher era a que cuidava de tudo, não incomodava, sacrificava os próprios desejos, que se sentia culpada sempre que colocava a si mesma no centro da própria história.
Demorei muitos anos para perceber que essas crenças não eram naturais. Eram construções culturais, familiares e religiosas profundamente incorporadas ao meu modo de existir. Eu não era obrigada a rejeitar minhas origens. Mas precisava aprender a dialogar com elas.
Casei-me mais tarde do que se esperava para uma moça criada em uma família tradicional mineira. Quando finalmente me tornei esposa, parecia ter conquistado uma espécie de certificado de pertencimento social. O casamento funcionava como um passaporte simbólico para o reconhecimento. Por algum tempo, acreditei que aquele lugar era definitivo.
Mas a vida raramente cabe nos roteiros que escrevem para nós.
O momento em que tudo mudou
O divórcio me colocou diante de uma experiência que nenhuma mulher da minha geração desejava viver: a de descobrir quem era sem as credenciais que a sociedade considerava indispensáveis. De repente, deixei de ser a esposa. Passei a ser divorciada.
Foi então que comecei a enxergar mecanismos que antes me eram invisíveis. Percebi o desconforto que uma mulher sozinha provocava. Percebi os julgamentos silenciosos. Percebi o quanto a aceitação social feminina ainda estava condicionada à validação masculina. Mas também percebi algo mais importante: durante muito tempo eu mesma havia acreditado nessas regras.
A maternidade trouxe novos desafios. Meu filho nasceu quando eu já me aproximava dos quarenta anos. Pouco depois, tornei-me mãe solo. Foi uma experiência de amor radical e aprendizagem contínua.
Eu não queria formar um filho dependente do meu cuidado, que repetisse a mesma história patriarcal que vivenciei. Queria formar um ser humano capaz de caminhar com as próprias pernas. Enquanto ele crescia, eu também crescia. Enquanto ele aprendia a explorar o mundo, eu aprendia a desapegar. Enquanto ele construía sua autonomia, eu começava a reconstruir a minha. Foi inspirada em bell hooks que refleti sobre o amor como prática de liberdade.
Aos poucos compreendi que cuidar não significava controlar. Amar não significava possuir. Proteger não significava impedir o voo. Quando meu filho partiu para escrever sua própria história em outro estado, senti um vazio inevitável.
Sabia que a lição da primeira infância estava garantida. Agora, segue e vai ser gauche na vida, menino, repetia para mim mesma.
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.Ricardo Reis
Mas naquele silêncio surgiu uma pergunta decisiva: Quem sou eu quando não estou ocupada tratando de tudo? Essa pergunta mudou minha vida.
A resposta não veio de uma vez. Na verdade, ninguém nasce mulher; torna-se mulher. A resposta que procurava foi sendo construída. Veio nos livros, na arte, na escrita, no retorno à universidade, nas novas amizades, nas mulheres resilientes que encontrei pelo caminho. E, aos poucos, fui me tornando autora de mim mesma.
Voltar à condição de estudante em uma universidade pública depois dos cinquenta anos foi um gesto de coragem e de reparação histórica. Não era apenas uma nova formação acadêmica. Era uma reconstrução subjetiva. Pela primeira vez, experimentei com profundidade a liberdade de aprender sem pedir licença. Aprendi que a emancipação não exige abandonar a ternura nem a maternidade. Não exige abandonar a espiritualidade nem as minhas origens.
A emancipação exige abandonar a culpa: a culpa por não corresponder às expectativas, por ocupar espaços tradicionalmente ocupados pelos homens. A culpa por envelhecer, por escolher o que me faz bem e não o que agrada ao outro. A culpa por desejar e poder existir para além das necessidades dos outros.
Descobri que não precisava me transformar numa vítima para reconhecer as injustiças que vivi. Nem precisava me transformar numa militante radical para defender minha liberdade. Bastava me tornar inteira.
Hoje compreendo que a mulher que trata de tudo continua existindo em mim. Mas ela já não carrega o peso de salvar o mundo. Ela sabe que cuidar dos outros é importante. E que cuidar de si mesma também é. E nessa perspectiva aprendi com Ailton Krenak a ideia de ampliar a humanidade e reinventar modos de existir para além dos muros da minha existência.
Minha história não é sobre romper com o passado. É sobre reconciliar-me com ele. Não sou a mulher que venceu porque sofreu. Sou a mulher que aprendeu a escolher. E talvez seja essa a forma mais profunda de liberdade.
Minha emancipação não aconteceu quando deixei de cuidar de tudo. Ela aconteceu quando deixei de acreditar que meu valor dependia exclusivamente do cuidado, da aprovação social, do casamento ou da culpa.



