Crônica de viagem, memória e encontro

A Rua da Amargura e a Casa de Babete

Samira Maria Araújo

Milho Verde, Serro, Minas Gerais · Inverno de 2026

“A felicidade mora nos interstícios.”

Há caminhos que começam na paisagem e terminam dentro de nós. Entre a memória da Estrada Real, as montanhas da Serra do Espinhaço e a luz acolhedora de uma casa chamada Babete, Samira Maria Araújo encontra uma delicada geografia do afeto.

A felicidade mora nos interstícios. Esconde-se numa curva de estrada, em uma canção esquecida, no cheiro de um livro antigo, no encontro inesperado com uma pessoa ou um lugar que, sem aviso, passa a habitar nossa memória. São esses pequenos instantes que costuram a vida e nos transformam.

Há mais de vinte anos, ouvi falar, pela primeira vez, da Estrada Real. Antes de conhecê-la, desenhei em minha imaginação uma estrada de terra povoada por castelos, reis, rainhas e princesas, à maneira dos contos de fadas que encantaram minha infância.

Bastou uma excursão escolar a São João del-Rei, por ocasião de um sarau literário, para que aquele mapa imaginário se desfizesse e outro surgisse. Descobri que aqueles caminhos haviam servido ao escoamento do ouro e dos diamantes arrancados das montanhas de Minas Gerais durante os séculos XVII e XVIII. A estrada dos meus sonhos revelava também as marcas profundas da colonização.

Na juventude, a curiosidade foi meu mais fiel guia. Desde então, passei a perseguir as histórias escondidas nas cidades históricas, nas igrejas, nos casarões, nas trilhas e, sobretudo, nas pessoas. Cada viagem ampliava meu olhar e enchia meu coração de perguntas. Aprendi que toda paisagem é também um texto escrito por quem viveu antes de nós.

Mas a beleza da Serra do Espinhaço nunca conseguiu esconder completamente suas feridas. Entre montanhas e rios, encontrei também cicatrizes abertas pela mineração: cursos d’água contaminados, áreas devastadas, biodiversidade ameaçada e tragédias que permanecem sem a reparação que a justiça e a memória exigem.

“A lição sabemos de cor.
Só nos resta aprender.”
Sol de Primavera · Beto Guedes e Ronaldo Bastos

A natureza parecia repetir, silenciosamente, aquilo que insistimos em não escutar.

A serra que conduz

Foi justamente essa serra, exuberante e resistente, que me levou a Milho Verde, pequeno distrito do Serro. Há lugares que nos acolhem antes mesmo de chegarmos. As ruas de terra, a igrejinha ao lado do campo de futebol, os casarões de taipa e o vento correndo entre os paredões de pedra compunham uma paisagem de delicadeza rara.

As águas das cachoeiras do Lajeado, do Moinho e do Canelau desciam como se lavassem não apenas as pedras, mas também os excessos que carregamos por dentro. Caminhando por aquelas trilhas, compreendi que a natureza também educa: ensina a desacelerar, a observar e a ouvir.

Depois de um dia inteiro de caminhadas e banhos de cachoeira, saímos em busca de um lugar para jantar. O guia apenas sorriu e disse:

“Procurem a Rua da Amargura.”

O nome provocou um estranhamento imediato. Como poderia um lugar cercado de tanta beleza guardar uma rua chamada Amargura? Talvez porque toda felicidade conheça, antes, algum caminho de dor.

No fim da rua, surgiu um casarão pintado de laranja intenso, destoando das fachadas brancas ao redor. Acima da porta, lia-se: Casa de Babete.

Meu coração acelerou.

Naquele instante, fui transportada ao universo de A Festa de Babette. Lembrei-me da extraordinária personagem criada por Karen Blixen: uma mulher que, fugitiva da repressão à Comuna de Paris, encontra no exílio não o fim, mas a possibilidade de reinventar a própria existência.

Pela arte da cozinha, Babette devolve aos outros aquilo que ninguém jamais lhe poderia tomar: sua liberdade de criar, sua dignidade e sua potência de transformar vidas.

Criar também é um ato de liberdade

Talvez seja por isso que Babette atravesse o tempo. Ela nos lembra que a emancipação feminina nem sempre se realiza em grandes gestos.

Às vezes, manifesta-se na coragem silenciosa de permanecer fiel ao próprio talento, mesmo quando o mundo insiste em reduzir uma mulher às perdas que sofreu.

A chegada

Entramos.

O cozinheiro nos recebeu com um sorriso largo e anunciou, como quem conhece o valor das boas surpresas:

E conquistou.

O risoto de gorgonzola com filé-mignon e mel parecia condensar a paisagem do lado de fora: delicadeza, força e generosidade. O vinho aquecia a conversa, enquanto os causos de quem percorreu o mundo faziam de desconhecidos velhos conhecidos.

Percebi, então, que certos lugares alimentam muito mais do que o corpo.

Comida

O sabor como memória, acolhimento e delicada forma de criação.

Vinho

O calor que prolonga a conversa e aproxima aqueles que antes eram desconhecidos.

Afeto

O raro alimento que transforma uma noite de viagem em lembrança permanente.

Naquela noite, compreendi que a Rua da Amargura talvez nunca tivesse sido sinônimo de tristeza. Talvez fosse apenas o caminho inevitável até os encontros que nos transformam. Afinal, a memória escolhe permanecer justamente onde a vida nos oferece um raro presente: o afeto.

Desde então, sempre que penso na Estrada Real, já não vejo apenas o ouro e os diamantes que por ela passaram, nem as contradições da nossa história.

Vejo também mulheres como Babette, capazes de reinventar o mundo com as próprias mãos; vejo a Serra do Espinhaço, que resiste apesar das feridas; e reencontro a certeza de que a felicidade continua morando nos interstícios, à espera de quem tenha coragem de percorrer, com o coração aberto, os caminhos da vida.

Há caminhos que nos levam a um lugar.
Outros nos devolvem a nós mesmos.

Samira Maria Araújo · Portal da Polo