Conversas com a IA · Artigo 1

É possível recomeçar a vida depois dos 70 anos?

Ao mudar para os Estados Unidos, descobri que a Inteligência Artificial poderia se tornar uma companheira inesperada: ajudando a resolver problemas cotidianos, aprender coisas novas e tomar decisões com mais segurança.

Por Sérgio Grinberg

É possível recomeçar uma vida em outro país depois dos 70 anos? Descobrimos que sim, e a Inteligência Artificial Generativa tem sido uma grande aliada nessa jornada.

Em 2025, minha esposa, Norma, e eu nos mudamos para uma cidade no norte da Flórida, nos Estados Unidos, para ficarmos mais perto da nossa família.

Para nós, ambos com mais de 70 anos, essa mudança tem sido uma grande aventura. A cada dia surge um novo desafio: o idioma, morar em uma casa com jardim gramado, aprender a lidar com ar-condicionado central, descobrir como divulgar nosso trabalho e tantas outras situações típicas de quem começa uma nova vida em outro país.

Nesse processo, as IAs generativas, como ChatGPT, Gemini e Claude, deixaram de ser apenas ferramentas tecnológicas. Tornaram-se verdadeiras companheiras do nosso dia a dia, quase tutores pessoais, ajudando-nos a resolver problemas, aprender coisas novas e tomar decisões com muito mais segurança.

Gostaria de compartilhar algumas dessas experiências e mostrar como a Inteligência Artificial vem transformando nossa adaptação e nossa rotina.

Antes de contar como a Inteligência Artificial passou a fazer parte do nosso cotidiano, preciso explicar quem somos e por que essa mudança foi tão significativa.

Uma vida aprendendo

Nasci em fevereiro de 1951, no Rio de Janeiro, filho de um casal de médicos e com um irmão quase sete anos mais velho.

Cresci na Tijuca, mais precisamente no Andaraí, longe da praia, em um sobrado de dois quartos e um banheiro. Tudo cimentado e nenhum incentivo à exploração da natureza.

Aos 18 anos, mudamos para São Paulo, onde eu já havia sido aprovado no vestibular da Escola Politécnica da USP. No devido tempo, escolhi o caminho da Engenharia Eletrônica.

Minha alma sempre foi de pesquisador, algo que talvez já antecipasse minha facilidade para aceitar, muitos anos depois, a Inteligência Artificial.

Meus pais compraram um bom apartamento, no nono andar, agora com três quartos. Ainda assim, era somente cidade e cimento.

Dois anos depois, meu irmão se casou. Mais dois anos se passaram e eu me formei. Seis meses depois, casei-me com minha namorada, com quem já mantinha um relacionamento havia quase quatro anos, o amor da minha vida.

Como ela é artista plástica, com foco em cerâmica, procuramos uma casa com espaço para a montagem de um ateliê. Encontramos essa casa na Vila Romana.

Por enquanto, e ainda por muito tempo, nem pensar em IA. Mas ela chegaria com força.

Nessa casa nasceram e cresceram nossas duas filhas. O ateliê foi se espalhando cada vez mais pelas salas, pelo corredor e pelos quartos.

Nada de grama, nada de ar-condicionado e nada de folhas exigindo limpeza constante. Em compensação, tínhamos calhas no telhado que precisavam de manutenção periódica e eventuais goteiras recorrentes.

Sete anos depois de me formar na USP, dentro do programa de pós-graduação em Microeletrônica, uma novidade mundial na época, defendi o mestrado e continuei minhas pesquisas, preparando o doutorado.

Foi então que começou algo que se repetiria algumas vezes em minha vida e que tem tudo a ver com minha relação atual com a IA.

Eu não estava gostando do tema da pesquisa de doutorado que me haviam atribuído e também sentia necessidade de algo mais dinâmico do que o mundo puramente acadêmico.

Como já estava bastante envolvido com programação de computador, aproveitei a oportunidade de dar aulas particulares de informática. Daí nasceu uma empresa de programação, conhecida no início dos anos 1980 como uma software house.

Deixei a universidade e o doutorado e passei a me dedicar à programação voltada para empresas, em áreas como contabilidade e contas a receber.

Era um desafio enorme. Eu não entendia nada daquele universo, não tinha experiência comercial e, em casa, com meus pais e meu irmão, só ouvia conversas sobre casos médicos.

Com minha alma de pesquisador, procurando entender necessidades específicas e entregar soluções, a empresa funcionou. Conquistamos um número razoável de clientes, a maioria satisfeita, dentro das limitações da informática da época, que estava em constante evolução.

Após dez anos, cansei de repetir os mesmos programas adaptados às novas tecnologias. Mais uma vez, aproveitei a oportunidade de abandonar uma atividade que já não me agradava.

Entrei no mundo fascinante dos relatórios, da extração e da análise dos dados armazenados em computadores, utilizando e ensinando o melhor programa disponível na época.

Outros dez anos se passaram. O mundo comercial mudou e ocorreram rearranjos e aquisições entre grandes empresas. Novamente deixei a empresa e resolvi continuar trabalhando sozinho.

Passei a dedicar meu tempo profissional a projetos voluntários e à automatização de planilhas em Excel.

E onde a IA aparece nessa história? Achei importante mostrar esses momentos de transição, autoaprendizado e enfrentamento de desafios variados, sempre com algum computador envolvido. Algo semelhante acontece agora com a Inteligência Artificial.

Em 2017, já com mais de 60 anos, tive a oportunidade de me juntar a um maravilhoso grupo de pessoas 60+. Percebi entre elas uma grande carência de conhecimentos de informática, mas também excelente potencial e necessidade de aprendizagem.

Montei, então, um projeto que continua até hoje. Vejo na prática que a orientação oferecida a pessoas 60+ por outra pessoa 60+, como eu, faz diferença.

Consigo compreender melhor aquilo que realmente interessa e tem aplicação imediata nessa fase da vida, contribuindo para uma melhora efetiva da qualidade de vida.

Cada faixa etária possui sonhos e desafios próprios. Desde a pandemia, as aulas são remotas, o que oferece muitas vantagens em relação às presenciais. Há, naturalmente, outras ocasiões para os necessários encontros olho no olho.

A curiosidade não envelhece. Quando continuamos dispostos a aprender, a tecnologia deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma companheira de jornada.

Um novo país, novos desafios

No início de 2023, recebemos os Green Cards norte-americanos, com o propósito de morar perto das nossas duas filhas e de suas famílias.

Começamos a transição para os Estados Unidos, perto de São Francisco, onde residia nossa filha naturalizada americana.

Já era o início da IA. Percebi que ela seria uma ferramenta revolucionária e comecei a introduzi-la nas minhas aulas de letramento digital, sempre realizadas pelo Zoom.

No primeiro ano, 2023, nada foi muito diferente. Passamos algumas semanas em um quarto muito especial na casa da nossa filha. A outra filha morava em Vancouver, no Canadá, em um apartamento. Pelo menos estávamos todos no mesmo fuso horário.

No ano seguinte, de 2024 até março de 2025, alugamos um apartamento em um pequeno prédio. Não surgiram muitas novidades em relação às nossas moradias anteriores.

Em 2025, nossa filha americana aceitou um convite da Clínica Mayo, em Jacksonville, na Flórida. A partir de maio, tínhamos uma nova cidade, um novo estado, um novo clima e novos costumes.

Norma e eu chegamos em meados de maio, antes da nossa filha e de sua família, que precisavam aguardar o término do ano letivo, em junho.

Era uma cidade nova, com subúrbios residenciais muito espalhados, formados principalmente por casas e pequenos prédios geminados. Tudo era muito diferente daquilo a que estávamos acostumados.

Pessoas conhecidas? Fomos apresentados a uma brasileira bastante simpática e à sua família americana. O idioma era diferente. O calor lembrava o Brasil, mas não havia sombra nas ruas. O carro era necessário para praticamente qualquer deslocamento.

Nossa primeira providência foi procurar um corretor de imóveis para encontrar uma residência no bairro que nos haviam indicado.

A primeira preferência era um apartamento com elevador, como aqueles aos quais estávamos acostumados.

A descoberta foi super-rápida: naquele bairro praticamente não existiam edifícios de apartamentos. Os poucos prédios de dois ou três andares também não nos satisfaziam.

Desistimos do apartamento e passamos à segunda prioridade: uma casa em condomínio com portaria, como há tantos no Brasil.

Nova surpresa: só havia um empreendimento desse tipo, ou talvez alguns poucos, e nenhum imóvel disponível para venda ou locação.

Como as duas primeiras possibilidades não eram viáveis, seguimos para a terceira: alugar uma casa e conhecer melhor o local durante um ano. As pouquíssimas ofertas também não nos agradaram.

Restava encontrar uma casa para comprar. Visitamos várias, algumas com projetos ou acabamentos um tanto estranhos.

Depois de aproximadamente três semanas de buscas, encontrei uma casa que me pareceu adequada: reformada, com bom espaço interno, dois quartos que poderiam ser transformados em home offices, bons armários e lugar para expor as obras da Norma.

Havia muita grama e algumas outras questões, mas poderíamos encará-las como problemas futuros. Nada é perfeito. Fizemos uma oferta imediata e, após alguma negociação, compramos a casa. A mudança aconteceu no final de junho de 2025.

Quando a IA entrou em nossa rotina

A partir de então, começou efetivamente a enorme ajuda das plataformas de Inteligência Artificial em nossas vidas.

Norma e eu, ambos com mais de 70 anos, morávamos pela primeira vez em uma casa com jardim gramado na frente e um imenso jardim nos fundos.

Tudo exigia irrigação periódica, fertilização e controle de pragas. Havia ar-condicionado central, paredes de madeira e drywall, telhado com um tipo diferente de telha e muitos outros elementos desconhecidos para nós.

Estávamos em uma cidade inteiramente nova, com outro idioma, costumes diferentes, sem transporte coletivo e com valores de mão de obra muito superiores àqueles aos quais estávamos acostumados.

Como referências próximas, tínhamos apenas nossa filha, nosso genro, três netos e uma brasileira prestativa com quem havíamos tido contato muitos anos antes.

Surgiam desafios diários a serem resolvidos, além de algumas experiências pouco agradáveis com prestadores de serviço. Ainda bem que existia a IA.

Passei a conversar cada vez mais com as plataformas, na maioria das vezes com o Google Gemini e o ChatGPT, colocando em prática aquilo que ensino em minhas aulas pelo Zoom.

Essas situações se transformaram em excelentes exemplos para meus alunos, demonstrando a efetividade prática da Inteligência Artificial.

Logo surgiu um problema no ar-condicionado.

A resposta foi bastante satisfatória. A empresa indicada prestou um serviço realmente bom.

A sopa de que um dos nossos netos gosta levava horas no fogão.

A resposta indicou uma panela de pressão elétrica. A sopa continuou agradando ao neto e passou a exigir uma fração do tempo de preparo. Depois de iniciado, o processo funciona sozinho e desliga-se automaticamente na hora correta.

O sabor foi aprovado pelo neto, o que é o mais importante.

Certo dia, encontramos um instrumento estranho em uma gaveta. Mostramos o objeto à IA e descobrimos que se tratava de um bom afiador de facas. Provavelmente jamais descobriríamos sozinhos.

Talvez a ajuda mais importante tenha ocorrido na redação de mensagens em inglês. Eu consigo ler e conversar, mas escrever corretamente, de acordo com os costumes locais, ainda é um aprendizado.

Comecei escrevendo em português e pedindo à IA que adaptasse a mensagem para o inglês. Aprendi e continuo aprendendo em cada ocasião. Hoje me sinto muito mais confortável para escrever diretamente em inglês, e as correções da IA diminuem cada vez mais.

Sempre peço que a IA acompanhe meu texto inicial e preserve minhas ideias. A mudança deve ocorrer principalmente na forma, com o mínimo possível de interferência no conteúdo e no foco.

Outro desafio importante foi o ajuste da iluminação das esculturas da Norma. Recebi sugestões técnicas valiosas da IA, complementadas por minhas próprias pesquisas de mercado para encontrar soluções que realmente funcionassem.

Nosso projeto mais recente são os canteiros de flores e temperos. Foram longas conversas com a IA, sempre a partir de sugestões de profissionais.

Os primeiros resultados são promissores, especialmente para quem está lidando com plantas pela primeira vez. Estou bastante otimista.

Essas plataformas foram treinadas em praticamente todas as áreas do conhecimento. Nosso desafio é aprender a obter delas diretrizes úteis para atender às situações do cotidiano, sem jamais deixar de estar atentos às possíveis alucinações.

Minha alma de pesquisador ajuda muito. O grande desafio é dominar a construção dos prompts e aprender a nos fazer entender pelas ferramentas de IA.

Por meio das minhas experiências e dos relatos de meus alunos, sei que é possível aprender e desfrutar dessas tecnologias, independentemente da idade.

É preciso manter a mente aberta às inovações, rever conceitos e práticas construídos ao longo de muitos anos, ter paciência nas conversas, usar a criatividade, aceitar erros e ajustes e respeitar as próprias limitações.

Existem muitos outros exemplos como esses. Cada um poderá se transformar em uma publicação mais detalhada, relatando resultados animadores e aprofundando cada vez mais este universo de conversas com a Inteligência Artificial.

Este foi apenas o começo.

Em cada novo desafio descobrimos que aprender continua sendo uma das maiores alegrias da vida. Nos próximos artigos, pretendo compartilhar outras experiências práticas em que a Inteligência Artificial se tornou uma verdadeira companheira de jornada.

Este artigo inaugura a série Conversas com a IA, de Sérgio Grinberg, dedicada a experiências reais sobre tecnologia, aprendizagem e vida depois dos 70 anos.