Crônica comemorativa

Ela chegou aos 62 com vigor de criança

Uma menina, trinta linhas de caligrafia e uma biblioteca que, silenciosamente, lhe ensinou a ler o mundo.

Samira Maria Araújo
Para os 62 anos da Biblioteca Municipal de Bom Despacho
26 de agosto de 2026
Uma presença em forma de palavras. Esta crônica foi escrita por Samira Maria Araújo para a celebração dos 62 anos da Biblioteca Municipal de Bom Despacho. É a memória de uma menina que chegou à biblioteca tentando melhorar a própria letra e saiu de lá, muitos anos depois, escritora. Que sua leitura neste aniversário seja também uma homenagem a todas as crianças que entram em uma biblioteca sem ainda saber quanto um livro pode transformar uma vida.

“Não dá para ler o que você escreveu.” Foi uma das frases que mais ouvi ao longo da minha vida escolar.

As professoras Neusa Ramos, Shirley Mota, Célia Assunção, Beatriz Faria e os saudosos Elvino Paiva, Lourdes Souza e Geralda Pontes fizeram de tudo para decifrar os meus garranchos e ensinar-me a escrever com alguma legibilidade. Eram rigorosas. Naquele tempo, parecia impossível concluir a escola sem saber ler, escrever e fazer contas — e eu, com aquela letra impossível, parecia desafiar diariamente a paciência delas.

O que nenhuma delas poderia imaginar é que o castigo destinado a melhorar minha escrita acabaria me oferecendo um presente muito maior: o gosto pelas histórias.

Eu recebia o caderno de caligrafia e uma tarefa que, para uma criança, parecia interminável: copiar trinta linhas por dia. E as histórias escolhidas eram de Monteiro Lobato.

Foi assim que comecei a frequentar a Biblioteca Municipal de Bom Despacho.

Todos os dias.

A Naná, bibliotecária, era a guardiã daquele território. Exigia silêncio absoluto. Não podíamos rir alto, conversar ou fazer qualquer movimento que ameaçasse a solenidade daquele lugar. Até Emília, com suas peripécias no Sítio do Picapau Amarelo, precisava aprontar em silêncio.

Havia uma estante inteiramente dedicada a Monteiro Lobato. Os livros, de capas esverdeadas, pareciam enormes para as minhas mãos pequenas. Eu mal conseguia mantê-los em pé. Então me debruçava sobre eles, na mesa pesada de sucupira, copiando as histórias enquanto, ao fundo, ouvia a voz da Naná advertindo-nos para cuidar dos livros.

Mas alguma coisa acontecia entre uma linha e outra.

Eu não sabia, naquele tempo, que uma biblioteca também educa pelo encantamento.

Enquanto copiava, lia.

Enquanto procurava as palavras, encontrava personagens.

Enquanto obedecia às trinta linhas, queria saber o que aconteceria depois.

E havia um problema: quando chegava à linha trinta, eu fechava o caderno. Às vezes, a história ainda não tinha terminado. As personagens ficavam suspensas, sem destino, como se tivessem sido abandonadas no meio da aventura.

Talvez tenham sido elas que, anos depois, voltaram para me cobrar o direito a um final.

Possivelmente por isso eu tenha me tornado leitora e, mais tarde, escritora.

A biblioteca foi ocupando, pouco a pouco, um lugar muito maior do que os sucessivos endereços que teve no centro da cidade. Tornou-se um tempo-espaço da minha infância, uma espécie de território secreto onde eu podia viajar sem sair do lugar.

Ali também descobri a Barsa.

Que maravilha eram aquelas enciclopédias! Vermelhas, enormes, cheias de palavras, mapas, biografias, acontecimentos históricos, conceitos, lugares e mundos que eu sequer sabia que existiam. Pesquisar era uma forma de viajar. Cada volume aberto parecia dizer que o mundo era muito maior do que aquilo que os meus olhos alcançavam.

Eu ia à biblioteca em busca de uma informação e saía carregando perguntas.

Quem sabe seja essa uma das maiores dádivas de uma biblioteca: ela não entrega apenas respostas. Ela ensina o leitor a desejar outras perguntas.

Os cadernos de caligrafia não conseguiram transformar meus garranchos em uma letra bonita. As dezenas de páginas copiadas não fizeram de mim uma calígrafa. Mas os livros fizeram outra coisa.

Ensinaram-me a ler.

E, mais do que isso, ensinaram-me a gostar de ler.

Hoje compreendo que não foram apenas as professoras que me ensinaram. Foram também os livros. Foram as personagens. Foram as histórias. Foram as bibliotecas públicas, com suas mesas, estantes, silêncios, descobertas e possibilidades.

Por isso, quando a Biblioteca Municipal de Bom Despacho completa 62 anos, sinto que também celebro uma parte da menina que fui.

Ela continua ali.

Quiçá ainda sentada diante daquela mesa de madeira, tentando segurar um livro grande demais para suas mãos. Só que a biblioteca mudou. Ou talvez tenha sido eu quem mudou.

Aquele silêncio quase sepulcral de minha infância deu lugar ao movimento. Hoje, a biblioteca respira encontros. Recebe saraus, lançamentos de livros, exposições, conversas, autores, leitores, crianças e escritores. A literatura circula por seus espaços e alcança outros lugares da cidade, como o Museu Ferroviário. Os livros continuam nas estantes, mas agora parecem saber que precisam sair delas para encontrar as pessoas.

E talvez seja essa a biblioteca de que uma cidade precisa: aquela que não apenas guarda livros, mas cria encontros. Porque uma biblioteca não é feita somente de paredes, estantes e acervos. É feita de leitores.

De crianças que entram sem saber que sairão diferentes.

De alguém que encontra, por acaso, um livro que precisava ler.

De uma história que chega no momento certo.

De uma palavra que permanece.

De uma memória que atravessa décadas.

De um leitor que um dia retorna para agradecer.

Eu sou uma dessas leitoras.

Volto à biblioteca depois de tantos anos e já não preciso copiar trinta linhas de Monteiro Lobato. Volto porque agora compreendo que aquele lugar me ensinou uma das mais bonitas formas de pertencer: pertencer às histórias.

A menina dos garranchos não conseguiu melhorar a letra.

Ainda bem.

Ela ganhou outra coisa.

Ganhou o amor pelos livros.

E talvez seja por isso que, aos 62 anos, a Biblioteca Municipal de Bom Despacho me pareça tão viva.

Ela tem a idade de uma senhora, mas carrega o vigor de uma criança: curiosa, inquieta, inventiva, pronta para descobrir o mundo outra vez.

Feliz aniversário, Biblioteca Municipal de Bom Despacho.

Obrigada por ter me recebido quando eu ainda não sabia que estava chegando a um dos lugares que ajudariam a formar quem eu seria.

E obrigada às professoras que, entre cadernos de caligrafia, correções e insistências, abriram para mim a porta da leitura.

Hoje sei: talvez elas quisessem apenas que eu aprendesse a escrever.

Mas a biblioteca fez com que eu aprendesse a ler o mundo.

E algumas histórias, finalmente, ganharam seus finais — que nem sempre são felizes, mas são possíveis.

Crônica de Samira Maria Araújo
publicada no Portal da Polo em homenagem aos 62 anos da Biblioteca Municipal de Bom Despacho, Minas Gerais.