Publicação especial
Ensaio Literário

Entre a máquina e o humano

Uma experiência de leitura de Bartleby, o escrivão
por Samira Maria Araújo
Nota editorial da PoloBooks

Este ensaio literário é publicado por ocasião da colação de grau de Samira Maria Araújo no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 28 de agosto de 2026, como uma homenagem aos professores que participaram de sua formação.

Costumamos recomendar aos jovens que leiam livros, que conheçam os clássicos, que façam da literatura parte de sua formação. Neste ensaio, porém, Samira nos mostra algo talvez ainda mais importante: o que a literatura pode fazer com um ser humano. As obras que lemos permanecem em nós, conversam umas com as outras, encontram nossas lembranças e experiências e, lentamente, transformam nossa maneira de olhar o mundo e reconhecer o outro.

Há ainda neste texto uma dimensão especialmente cara à PoloBooks: o reconhecimento do livro como objeto de experiência estética. Antes mesmo de penetrar plenamente na narrativa de Melville, Samira observa a capa, as cores, a textura, a tipografia, o papel, as manchas, as páginas e o projeto gráfico. Porque um livro começa a ser lido antes da primeira frase: começa no encontro entre os olhos, as mãos e o objeto que temos diante de nós.

É desse encontro entre a leitora, sua história e a materialidade do livro que nasce este ensaio. Samira não apenas escreve sobre literatura. É uma escritora que pensa através da literatura.

A biblioteca interior da autora

Obras em diálogo

Uma leitura nunca chega sozinha. Ao entrar em Melville, Samira reencontra outros livros, imagens e narrativas que permanecem em sua memória de leitora.

Obra central

Bartleby, o escrivão

Herman Melville
Trabalho, recusa, silêncio, invisibilidade e condição humana.
Literatura

Moby Dick

Herman Melville
A ação obsessiva de Ahab contraposta à inação de Bartleby.
Artes visuais

Abaporu

Tarsila do Amaral
Corpo, desproporção, trabalho e condição humana.
Cinema

Medianeras

Gustavo Taretto
Paredes, solidão e dificuldade de estabelecer vínculos.
Literatura

A Caverna

José Saramago
O ser humano transformado em função, profissão e utilidade.
Literatura brasileira

Sorôco, sua mãe, sua filha

Guimarães Rosa
Acolhimento, solidariedade e comunhão diante da dor.

Há professoras que nos marcam e permanecem em nós muito tempo depois que terminam as aulas da faculdade. Elizabeth Guzzo de Almeida, a querida Beth Guzzo, professora de Literatura Infantil Latino-Americana da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é uma delas.

Foi com Beth que aprendi a pensar a obra literária não apenas como um texto a ser compreendido, mas como uma experiência estética a ser vivida. A cada leitura proposta no curso de Pedagogia, eu era convidada a entrar na obra, interagir com suas palavras, imagens, silêncios e sentidos; a sentir prazer diante do texto e, sobretudo, a permitir que a literatura ampliasse minha maneira de olhar a América Latina e outras partes do mundo.

Depois de Beth Guzzo, tornei-me outra leitora. Passei a desejar uma leitura inquieta, daquelas que não terminam quando fechamos o livro. Uma leitura que nos desinstala, nos transforma e, de algum modo, nos torna mais humanos.

Algumas leituras não terminam quando fechamos o livro.

Acredito que existem obras capazes de melhorar nossa existência no planeta e nossa relação com o outro, porque nos fazem perceber aquilo que, na pressa cotidiana, deixamos de enxergar. São livros que nos aproximam de uma sociedade mais justa, solidária e amorosa.

Nessa perspectiva, alguns livros me surpreendem também pela beleza de sua construção estética. Encantam-me as ilustrações, a relação entre palavra e imagem, a escolha precisa de uma palavra em lugar de outra, a linguagem figurada, as marcas pessoais de uma autora ou de um autor, seu modo singular de narrar e de enxergar o mundo. Tudo isso amplia e aprofunda a experiência da leitura.

Foi assim que entrei em Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street, de Herman Melville, na tradução de Antônio Xerxenesky, publicada pela Antofágica em 2023. O livro me foi indicado por Rúbia de Sena, minha médica, que compartilha comigo a percepção de que a literatura também pode participar dos caminhos de cuidado e de cura da ansiedade.

A memória da máquina

Curiosamente, meu primeiro interesse pelo livro não nasceu de Melville, nem de Bartleby.

Nasceu da máquina de datilografia.

Quando adolescente, no início dos anos 1980, fiz um curso de datilografia. Foi graças a esse curso que consegui meu primeiro emprego com carteira assinada. A máquina de escrever ficou guardada em algum lugar da memória, mas seu som permaneceu. Ainda hoje consigo ouvir o barulhinho ritmado das teclas ASDFG sendo repetidas inúmeras vezes. As teclas da Remington eram duras, e meus dedos, magros e frágeis. Talvez por isso a memória daquele teclado tenha ficado tão profundamente inscrita em mim.

Foi essa lembrança que me aproximou do livro indicado pela médica.

Depois da primeira impressão provocada pelo título e pela ilustração da capa, lembrei-me das aulas de Beth Guzzo. E aconteceu o grande encontro entre a leitora e a obra.

A primeira vez que ouvi falar do escritor norte-americano Herman Melville foi quando li Moby Dick. Impressionou-me a maneira como construiu Ahab, o capitão do Pequod, e sua busca implacável por Moby Dick, movida pela vingança e pela obsessão.

Agora, diante de Bartleby, tive a sensação de encontrar em Melville uma espécie de movimento contrário: se Ahab é o homem tomado pela ação, Bartleby parece encarnar a inação. Um quer ir até o fim; o outro, simplesmente, prefere não.

Gosto de pensar no modo como cada escritor constrói suas histórias e nos efeitos que produz em nós. Melville parece saber que, às vezes, uma personagem pode nos atingir justamente por aquilo que se recusa a fazer. E, em Bartleby, tudo parece ter sido cuidadosamente pensado para que a experiência estética não se restrinja ao texto.

O livro como experiência estética

O projeto artístico-visual de Letícia Lopes, em diálogo com o projeto gráfico de Giovanna Cianelli e Letícia Lopes, participa intensamente da narrativa. Nada parece gratuito.

A textura da capa dura e as cores fortes — o laranja, o marrom, o preto e a fúcsia — compõem uma atmosfera fechada, quase claustrofóbica. Parecem combinar com a paisagem que Bartleby contempla pela janela: uma parede sem horizonte, sem natureza, sem qualquer sinal de acolhimento ou afeto.

Na capa e na lombada, pequenas formas circulares lembram teclas de uma máquina de datilografia. Ainda na capa, um homem está sentado diante da máquina. Seu corpo é desproporcionalmente grande em relação à cabeça.

Essa deformação me fez pensar imediatamente em Abaporu, de Tarsila do Amaral. Não afirmaria uma relação de influência, mas a aproximação visual é provocadora. Em ambas as imagens, a desproporção do corpo parece deslocar o olhar para o trabalho, para a condição humana e para aquilo que o corpo é capaz de realizar — ou é obrigado a realizar.

Na contracapa, uma xícara de café.

Um artefato aparentemente banal, mas quase um símbolo universal do mundo do trabalho: produtividade, rotina, vigília, repetição, ausência de pausas.

E, abaixo dela, o mantra que atravessa a narrativa como uma pequena frase capaz de desmontar todo um sistema:

A recusa de Bartleby “Prefiro não.”

Duas palavras que parecem simples, mas que, repetidas como resposta de Bartleby, adquirem uma força perturbadora ao longo da narrativa.

Até mesmo as primeiras páginas participam da construção da história. Os créditos aparecem como se fossem folhas de um processo, protocoladas, numeradas, burocráticas. Nas páginas seguintes, o texto surge borrado, como se tivesse sido marcado pelo papel-carbono utilizado nas cópias feitas à máquina.

O efeito é extraordinário.

Nesta edição, o texto foi integralmente datilografado à mão. Essa escolha estabelece uma relação direta entre a materialidade do livro e a história que ele conta. A margem direita livre, as marcas do fundo do copo de café e as manchas de papel-carbono transformam a página em parte da narrativa.

A própria organização das páginas conta uma história. Da primeira à página 69, o texto da página ímpar reaparece na página par, como uma cópia produzida pelo papel-carbono. Da página 70 à 140, essa cópia começa a se desfazer. Os borrados se intensificam, como se alguém revisasse, corrigisse, retirasse, apagasse partes do texto. A partir da página 141, o processo se inverte: o borrado também começa a desaparecer, até que a cópia se desfaz completamente e resta apenas o fim.

O livro realiza, diante dos nossos olhos, um movimento de reprodução, apagamento e desaparecimento.

Quando a máquina deixa de funcionar

Então entro na história.

E a catarse acontece.

Minha empatia com Bartleby, o copista, é imediata.

O escrivão foi contratado por sua utilidade. Suas características pareciam perfeitas para o cargo: nenhuma emoção aparente, nenhuma distração e muita produtividade. Uma espécie de máquina de datilografar incansável.

Até que, um dia, o copista deixa de produzir aquilo que dele se esperava e passa a responder às solicitações do advogado-narrador sempre com a mesma expressão: “Prefiro não.”

Sem sua utilidade para o escritório, sua presença passa a ser um incômodo. A escolha de responder “Prefiro não” rompe a lógica frenética daquele ambiente. O advogado-narrador, acostumado à engrenagem previsível do trabalho, vê diante de si alguém que simplesmente não acompanha mais o ritmo que lhe é imposto.

Bartleby não grita. Não protesta. Não organiza uma revolta. Não apresenta um discurso revolucionário.

Ele apenas prefere não.

E talvez seja justamente essa inação que nos incomode tanto.

A parede

A cena em que Bartleby olha pela janela do escritório e encontra apenas uma parede de tijolos me remete ao filme argentino Medianeras, dirigido por Gustavo Taretto, em 2011. Na história de Martín e Mariana, as paredes cegas dos edifícios funcionam como metáfora da solidão e da dificuldade de estabelecer vínculos com o mundo e com o outro.

Em Bartleby, a parede também parece ser uma metáfora.

Ele está diante dela, mas não apenas diante de uma parede. Está diante de um mundo que perdeu o horizonte. E há uma ironia poderosa no fato de essa história se passar em Wall Street, a “rua da parede”.

A parede está fora da janela, mas parece também estar dentro de Bartleby.

Tudo no livro conversa entre si: o espaço, o projeto gráfico, a máquina, o papel-carbono, o café, a repetição, o trabalho, o silêncio, a parede e, sobretudo, o corpo de um homem que deixa de funcionar segundo aquilo que os outros esperam dele.

Bartleby não é uma máquina defeituosa.
É um ser humano.

E talvez seja essa a pergunta mais incômoda que Melville nos deixa: o que acontece quando alguém deixa de cumprir a função que o mundo lhe atribuiu?

Quando já não produz, quando já não serve, quando já não corresponde às expectativas, ainda conseguimos enxergar a pessoa?

A literatura e o outro

Essa passagem de Bartleby me fez pensar em A Caverna, de José Saramago, especialmente na experiência de Cipriano Algor. Também ali o ser humano se vê ameaçado por uma sociedade que transforma pessoas em funções, profissões e utilidades. Quando deixam de ser necessárias à engrenagem, tornam-se quase invisíveis.

Bartleby também se torna invisível.

Ou talvez, de maneira ainda mais perturbadora, passe a ser visto apenas porque deixou de funcionar.

É nesse ponto que Bartleby, o escrivão deixa de ser apenas uma história sobre um funcionário de escritório em Wall Street e se transforma em uma experiência de humanização da sensibilidade de quem a lê.

Essa dimensão de solidariedade humana me remete a “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa, em que a comunidade se une a Sorôco no canto triste, transformando a dor individual em uma experiência coletiva de acolhimento e comunhão.

Talvez seja essa uma das potências da literatura: permitir que experimentemos a existência a partir de outros lugares.

Ela nos aproxima daqueles que não compreendemos, daqueles que se afastam de nossas expectativas e, principalmente, daqueles que poderiam permanecer invisíveis aos nossos olhos.

Melville nos coloca diante de alguém que não conseguimos explicar completamente.

E talvez esteja aí uma das grandes forças da literatura: nem sempre compreender o outro é possível; às vezes, é preciso permanecer diante dele.

Permanecer diante de Bartleby.

Diante de sua recusa.

Diante de seu silêncio.

Diante da parede.

Diante de nós mesmos.

Acredito profundamente que a literatura torna os humanos-máquinas um pouco mais humanos justamente quando interrompe nossas respostas prontas e nos obriga a permanecer diante daquilo que não sabemos explicar.

Ela nos ensina que o outro não precisa ser imediatamente compreendido para ser reconhecido em sua humanidade.

O que permanece depois da leitura

Por isso, depois de ler Bartleby, o escrivão, fiquei com uma inquietação que não cabe em uma resenha.

Fiquei com duas palavras:

“Prefiro não.”

E com uma pergunta que elas devolvem a cada leitora e a cada leitor:

E se, por trás de toda recusa, houver uma pessoa que está apenas tentando existir?

Realmente, algumas leituras não terminam quando fechamos o livro. Elas continuam dentro de nós, modificando silenciosamente o modo como olhamos o mundo e as pessoas que nele habitam.

Entregue-se à boa literatura.

Talvez Bartleby também prefira que você não saia dessa história do mesmo jeito que entrou.

Eu não saí.

Como também não saí do mesmo jeito que entrei nas aulas de Literatura Infantil Latino-Americana de Beth Guzzo. E, muito menos, saí do mesmo jeito que entrei na obra de Melville.

Uma verdadeira experiência estético-literária permite abrir uma janela onde antes havia apenas uma parede de tijolos.

Samira Maria Araújo
Ensaio literário publicado por ocasião de sua colação de grau em Pedagogia pela UFMG
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