Entendendo o sucesso do livro de Harper Lee

“Queria que você a conhecesse um pouco, soubesse o que é a verdadeira coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar – prosseguiu Atticus. – E, mesmo assim, ir até o fim, apesar de tudo.”

O sol é para todos, ou, no original em inglês, To kill a mockingbird, é um romance publicado em 1960 e escrito por Harper Lee. O livro foi um sucesso instantâneo, com um tema muito abordado nas escolas e logo se tornou um clássico da literatura americana, ganhando um o prêmio Pulitzer. A autora se baseou muito em sua família e vizinhos pra escrever o livro e isso nos mostra como injustiças são, frequentemente, parte de nosso cotidiano, mesmo que não vejamos ou queiramos acreditar.
Harper Lee nasceu no Alabama, em 1926 e publicou apenas dois livros em sua carreira como escritora, mas isso não a impediu de ganhar prêmios importantes, incluindo a Medalha Presidencial da liberdade em 2007 devido à sua colaboração para a literatura.


“Eu nunca esperei qualquer tipo de sucesso com meu livro. Eu esperava uma morte lenta e piedosa nas mãos dos críticos, mas, ao mesmo tempo, eu esperava que alguém gostasse do livro o suficiente para me encorajar. Encorajamento público. Eu esperava um pouco, como disse, mas consegui muito e, de certo modo, isso foi tão assustador quanto a morte rápida e piedosa que eu esperava.”


Entre trabalhos de meio período que lhe davam tempo para escrever, Lee publicou apenas em 2015 seu segundo livro: Vá, coloque um vigia (Go set a watchman). A autora morreu dormindo em 2016, aos 89 anos.
Dificilmente ouvimos falar de um autor com um livro tão bem aceito quanto Harper. Seu livro fala de injustiças raciais e a luta para provar a inocência de um crime não cometido, além da transição da inocência para o conhecimento de como a sociedade realmente funciona. Mesmo que as coisas tenham melhorado, ainda lidamos com preconceitos raciais diariamente, seja um olhar torto ao fazer compras ou uma perseguição em locais públicos. Retratando esse tema que, infelizmente, ainda é muito contemporâneo, Harper fala sobre como é difícil conseguir a liberdade de mente e espaço quando o medo das diferenças domina as pessoas.


“Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros?”


Ao testemunhar o julgamento de Tom Robinson, um homem negro acusado injustamente de estupro, Scout, a narradora, repensa sobre sua cidade, família e sobre seus próprios valores. Mesmo que Tom claramente não seja o culpado, ele ainda é condenado e isso faz com que Scout repense seus próprios preconceitos. Tanto os acontecimentos quanto sua vida e círculo social, além de uma inesperada salvadora, fazem com que Scout veja a realidade do lado negro da humanidade, onde os preconceitos falam mais alto do que a irmandade e os medos se transformam em monstros. Assim, ela consegue entender seus próprios preconceitos e os das pessoas que ama.

A situação de Scout piora quando os vizinhos e outras crianças começaram a excluir ela e seu irmão porque seu pai está defendendo um homem negro. Ao guardar sua cela, é Scout quem salva seu pai e Tom de serem linchados pela população e, mesmo provando que Tom é fisicamente incapaz do estupro, ele ainda é condenado e baleado ao tentar escapar. Todos esses acontecimentos que levam ao injusto fim de sua vida nos faz pensar sobre as pessoas de bem que vivem em nossa sociedade. Pessoas que não entendem o que é viver com medo por sua condição social ou cor e nem o custo da inocência de uma criança, que precisa mudar seus valores rapidamente para salvar vidas e sua própria família.


“Quando crescer, todos os dias você verá brancos ludibriando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro desta forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo.”


Casos como o de Tom acontecem todos os dias, é válido ressaltar, também, que o livro foi baseado na realidade da autora. Em 1931, nove adolescentes negros foram acusados de estupro por duas garotas. Esse julgamento durou seis anos, rendeu muitas manchetes e levantou ainda mais o debate sobre racismo nos Estados Unidos. Enquanto respondiam ao julgamento em cárcere, e mesmo que uma garota tenha mudado sua versão, dizendo que não foi estuprada, cinco desses garotos ainda foram culpados de estupro.


“Só existe um tipo de gente: gente.”

Igualdade racial ainda é uma pauta muito ativa em movimentos sociais como o feminismo e mesmo vendo que muitas pessoas aprenderam a perceber que não existem diferenças pela cor, ainda existe muito racismo velado, muitas ações escondidas por trás de outros motivos, mas que são baseados nessa infeliz realidade. Leitura obrigatória para entender temas como injustiças e como lidar com as diferenças sociais, O sol é para todos vai mudar sua percepção!