O cinema que ficou em mim · Episódio 1
Uma fotografia. Uma lembrança. Uma identidade.
Por Ivo Donayre
Ontem, ao terminar meu treino na academia, fiz uma fotografia diante do espelho. Gostei do que vi, embora a imagem pedisse alguns ajustes de definição e enquadramento. Pedi ajuda ao meu amigo ChatGPT. Primeiro vieram os retoques; depois, por curiosidade, quis me ver sentado. Foi quando uma lembrança antiga, até então adormecida, apareceu com surpreendente nitidez.
Vi novamente, em pensamento, um filme de muitas décadas atrás. Ou melhor, não vi o filme inteiro. Vi uma cena. Ela permaneceu em mim com aquela força misteriosa que certas imagens adquirem, como se fossem guardadas não apenas na memória, mas em algum lugar mais profundo da nossa existência.
Recordo uma invasão em Tânger, no Marrocos. Homens a cavalo, armas, gritos, correria. Uma mulher é levada por guerreiros. Tudo parece acontecer de uma só vez, até que, subitamente, o tumulto dá lugar ao silêncio. Na minha lembrança, a câmera percorre o pátio, passa pelos cavaleiros imóveis e encontra um homem sentado, vestido de preto, com um turbante e uma rosa na mão.
Era Sean Connery, interpretando Raisuli no filme O Vento e o Leão, de 1975.
O ator que tantos conhecemos como James Bond, o agente 007, ali não precisava de um automóvel veloz, de um aparelho extraordinário ou de uma frase espirituosa. Bastavam sua presença, o olhar e a serenidade daquele homem cercado pela violência. O contraste me impressionou: de um lado, o tumulto da História; de outro, a delicadeza de uma rosa.
Quando pedi à inteligência artificial que me vestisse como aquele personagem, não pretendia reproduzir Sean Connery. Queria revisitar uma lembrança. E, ao olhar minha imagem transformada, compreendi que a brincadeira poderia abrir um caminho maior: investigar o filme e as pessoas que existiram por trás da ficção.
O personagem se chama Raisuli. Não era propriamente o sultão, como por vezes o imaginei, mas um influente líder tribal marroquino, Mulai Ahmed er Raisuli, que viveu entre o fim do século XIX e o começo do XX. Em 18 de maio de 1904, seus homens sequestraram, perto de Tânger, Ion Perdicaris e seu enteado, Cromwell Varley. O caso provocou uma crise diplomática e mobilizou o governo do presidente Theodore Roosevelt.
A realidade, descobri, era diferente do que o cinema me havia contado. No filme, os dois homens sequestrados na vida real dão lugar a uma viúva americana, Eden Pedecaris, interpretada por Candice Bergen, levada com seus dois filhos. John Milius, que escreveu e dirigiu O Vento e o Leão, tomou um acontecimento histórico e lhe deu o ritmo, os conflitos e a imaginação de uma aventura cinematográfica.
A própria geografia participou dessa transformação. Embora ambientado no Marrocos, o filme foi rodado principalmente em regiões da Espanha, entre elas Granada, Sevilha e Almería. O cinema fez de um país a paisagem de outro, assim como fez de um episódio diplomático um drama de proporções épicas.
O mais curioso é que cheguei a essas descobertas por causa de uma fotografia tirada na academia. Submeti a imagem criada ao Google Imagens e encontrei, entre os resultados, um retrato de Connery caracterizado como Raisuli. O turbante escuro, os detalhes avermelhados, a expressão: havia ali pistas suficientes para que uma imagem conversasse com a outra.
Não sei se a cena que guardo corresponde exatamente a cada plano do filme. A memória não é uma filmoteca impecavelmente catalogada. Ela seleciona, mistura, ilumina. Às vezes conserva uma rosa e deixa escapar todo o jardim.
Mas talvez seja justamente esse o milagre do cinema: a projeção termina, acendem-se as luzes, voltamos à rua e continuamos carregando certas imagens por toda a vida.
Agora compartilho a minha. E fico imaginando quantas cenas inesquecíveis permanecem guardadas dentro de cada um de nós.



