Crônica · Memórias da infância
As rosas de dona Helena
Por Samira Maria Araújo
Imagem artística inspirada na fotografia enviada pela autora.
No caminho para a escola, descíamos as ruas à procura de flores para levar às professoras. Cada uma de nós seguia seu próprio itinerário, como se a beleza estivesse escondida em algum jardim, à espera de ser descoberta. Procurávamos a flor mais bonita, a mais viçosa, aquela que, entregue em mãos, seria capaz de arrancar um sorriso de nossa professora.
Nem sempre a expedição terminava em paz. Não raro, ouvíamos os xingamentos das donas das casas, que ameaçavam contar às nossas mães que andávamos roubando flores. Éramos pequenas, peraltas e provavelmente ainda não sabíamos distinguir muito bem o gesto de colher uma flor da invasão de um jardim alheio. Tampouco pensávamos na diferença entre deixá-la florescer em seu canteiro e vê-la murchar num vaso sobre a mesa da professora.
Sabíamos, entretanto, que havia um destino nobre para aquela pequena transgressão: as mãos de nossa professora. E que alegria era chegar à escola com o presente!
Disputávamos quem levaria mais flores. Se uma menina aparecia com uma margarida, no dia seguinte outra tratava de não ficar para trás. A margarida era nossa preferida. Abundante nos jardins das ruas por onde passávamos, parecia feita da mesma matéria de nossa infância: singela, generosa, sem exigências de grandeza.
Também gostávamos dos hibiscos. Ao recebê-los, a professora aproveitava para nos ensinar as partes da flor. E lá estávamos nós, encantadas, vendo o presente se transformar em lição: cálice, corola, androceu e gineceu. Essas duas últimas palavras provocavam risadas na turma. Entre uma explicação e outra, a professora nos ensinava que até a beleza guardava seus mistérios.
Às vezes, acompanhávamos a flor com um bilhete, escrito às pressas num pedaço de papel arrancado do caderno: “Professora, eu te amo!”
Então vinha o abraço. E, com ele, a frase que nos fazia florescer por dentro:
— Você é tão linda quanto esta flor!
Talvez não soubéssemos, naquele tempo, o tamanho que uma palavra de afeto pode alcançar na vida de uma criança. Penso que nem a professora imaginasse que, ao nos comparar a uma flor, plantava em nós uma lembrança capaz de atravessar os anos. A aula começava antes mesmo da primeira atividade, no encontro entre quem oferecia e quem acolhia. Aprendíamos que o conhecimento também podia nascer de um gesto delicado, de um olhar demorado, de alguém que nos fazia sentir importantes.
Foi essa lembrança que me levou de volta a uma rua da minha infância, onde havia uma casa antiga com um pequeno jardim de roseiras, todas cor-de-rosa.
O roseiral não media mais que dois metros por três. Erguia-se acima do nível da rua, protegido por um muro cujo parapeito ficava pouco mais de um metro acima de nossas cabeças. As roseiras, no entanto, pareciam não conhecer limites. Suas hastes longas sustentavam flores grandes, de pétalas delicadas e perfume intenso. A fragrância se espalhava pelo caminho e alcançava até quem passava sem se aproximar.
Nunca entendi por que nenhuma de nós, crianças peraltas, nem mesmo os adultos, colhia aquelas rosas. Bastava subir no parapeito, esticar o braço e escolher a mais bonita. Afinal, se éramos capazes de enfrentar as broncas das vizinhas por causa de margaridas e hibiscos, por que não levar uma daquelas rosas para nossa professora?
Mas ninguém as roubava.
Elas estavam ali, expostas ao olhar de todos e, ainda assim, pareciam pertencer a uma espécie de acordo silencioso entre a casa e a rua. Nós as contemplávamos. Os adultos também. Havia alguma coisa naquele jardim que nos fazia diminuir o passo, como se a beleza nos pedisse licença para existir.
Talvez fosse a paz. Ou a sensação de que, em meio à pressa dos dias, alguém se dedicava a cultivar algo sem esperar nada em troca.
Aquelas rosas nos ofereciam um presente que não precisava ser arrancado do pé: bastava passar por elas.
A dona da casa era dona Helena.
Era uma senhora que cuidava de suas roseiras cor-de-rosa com esmero e sabedoria. Conhecia o tempo das podas, a medida certa da água, a necessidade do sol e o adubo adequado para fortalecer a terra. Sabia que uma planta precisava de condições para florescer. Não exigia rosas de um galho exausto nem esperava que a beleza sobrevivesse sem cuidado.
Tínhamos certeza de que era o amor de dona Helena que fazia aquele jardim florescer.
Depois de cada floração, ela podava os galhos, um a um, limpava as plantas e preparava as roseiras para um novo ciclo. Muitas pessoas lhe pediam mudas para cultivar em seus próprios quintais. Algumas voltavam contando que não haviam conseguido o mesmo resultado. As mudas vinham daquelas roseiras, mas as flores não desabrochavam da mesma maneira.
Possivelmente porque cultivar não seja apenas plantar. Exige atenção, paciência, conhecimento e respeito ao tempo de cada coisa. Exige reconhecer que não basta desejar flores: é preciso cuidar das condições para que elas existam.
As roseiras de dona Helena continuam lá, no jardim. Resistem à vida agitada da cidade e oferecem a quem passa um instante de contemplação. São poesia para os olhos e um gesto de afeto dirigido à criança que ainda vive em nós.
Fecho os olhos e ainda vejo o sorriso de dona Helena enquanto nos observava passar diante de seu jardim e respirar fundo o aroma das rosas. E o perfume daquele roseiral, tantos anos depois, ainda atravessa nossas lembranças.



