Meu Casaco em Paris | Roberto Montanari Custódio
Crônica

Meu Casaco em Paris

Um casaco levado à costureira antes da viagem acaba carregando muito mais do que proteção contra o frio. Em Paris, uma conquista se transforma em memória, gratidão e consciência.

Por Roberto Montanari Custódio

Demorei para escrever sobre isso porque, sinceramente, ainda não consegui digerir por completo o que vivi.

A fotografia diante da Torre Eiffel representa muito para mim. Não apenas pelo aspecto turístico, mas principalmente pelo que aquele lugar passou a simbolizar. A Torre Eiffel não foi simplesmente um ponto turístico da minha viagem. Foi o lugar onde, de repente, muita coisa da minha vida fez sentido.

Antes de chegar a Paris, eu havia passado alguns dias na Alemanha. Durante a viagem inteira carregava uma sensação estranha no peito, alguma coisa que queria sair, quase um grito, mas que ainda não tinha encontrado força nem forma.

Passei pela Torre Eiffel pela primeira vez durante um passeio pela cidade. Foi mágico. Vê-la diante de mim, depois de conhecê-la durante toda a vida apenas por fotografias e filmes, já seria suficiente para tornar aquele momento inesquecível.

Mas aquele grito ainda estava preso.

À noite, fui até o Jardim do Trocadéro. Sentei-me diante daquela vista extraordinária e fiquei olhando para a torre por muito tempo.

Talvez meia hora.

Eu estava praticamente imóvel. Olhava para ela enquanto um filme começava a passar pela minha cabeça.

Foi então que caiu a ficha.

Eu estava ali.
Do outro lado do mundo.

E comecei a chorar.

Não foi um choro discreto. Chorei copiosamente, de soluçar, sem conseguir dizer nada.

Normalmente seguro muito minhas emoções. Não porque considere isso uma qualidade ou um defeito; simplesmente faz parte da minha natureza. Mas, naquela noite, não tentei controlar nada. Deixei que tudo saísse em forma de lágrimas.

E não eram lágrimas de tristeza.

Para compreender aquele choro, é preciso conhecer a história do meu casaco.

Poucos dias antes da viagem, percebi que ele estava um pouco grande em mim e pedi à minha mãe que o levasse a uma costureira que mora perto de nossa casa para fazer alguns ajustes.

Ao receber o casaco, ela perguntou, por curiosidade, para onde eu iria com uma roupa tão grossa, já que em São Paulo dificilmente faria frio suficiente para usá-la.

Minha mãe respondeu:

A costureira se emocionou.

Chorou.

E disse algo mais ou menos assim:

Só depois compreendi plenamente aquela frase.

Viajar para o exterior está muito distante da realidade de muitas pessoas do lugar de onde venho. A costureira sabia disso. Talvez tenha percebido antes de mim o tamanho simbólico daquela viagem.

Aos 26 anos, eu ainda sabia muito pouco sobre a vida. E precisei estar diante da Torre Eiffel para compreender aquilo que uma mulher mais velha, sentada diante de uma máquina de costura, havia entendido imediatamente.

Enquanto eu chorava em Paris, pensei em minha origem, em minha família e em todo o esforço necessário para chegar até ali.

Durante cinco anos, passei entre quatro e cinco horas por dia no transporte público para ir e voltar da faculdade. Durante muito tempo, um avião fazia parte de uma realidade distante da minha. Quem me conhece há mais tempo sabe o que representou para mim o meu primeiro voo.

E, de repente, tão poucos anos depois, eu estava ali.

Do outro lado do mundo.
Eu havia cruzado um oceano.
E estava chorando diante da Torre Eiffel.

Existe, evidentemente, uma história de superação nisso. E tenho orgulho dela. Mas não gosto da romantização da dificuldade.

Não há glamour em passar quatro ou cinco horas por dia dentro de ônibus e trens para conseguir estudar. Não há beleza na falta de oportunidades. Não deveríamos transformar sofrimento em requisito para justificar conquistas.

Quem nasce pobre em um país tão desigual frequentemente precisa percorrer uma distância muito maior para alcançar lugares que, para outros, sempre estiveram próximos.

Por isso, atravessar aquele oceano tinha para mim um significado que ia muito além de uma viagem.

Era também a distância entre o menino que conheci e o homem que estava ali.

Talvez eu nunca consiga descrever exatamente o que senti naquela noite. A sensação foi intensa demais para caber completamente nas palavras.

Mas sei que aquele choro lavou a minha alma.

E não apenas a minha.

Pensei muito nos meus pais.

Eles nunca tiveram as mesmas oportunidades, mas fizeram tudo o que puderam para que eu estudasse, me formasse e pudesse chegar a lugares aos quais eles próprios não tiveram acesso.

Sei que me emocionei profundamente ao estar na Europa, mas imagino que minha emoção não tenha chegado nem perto daquilo que eles sentiram ao perceber que haviam colocado um filho no mundo.

Literalmente no mundo.

Nunca conseguirei fazer por eles tudo o que fizeram por mim. Talvez nem se tivesse outras duas vidas.

Mas há uma coisa que me tranquiliza.

Se minha vida terminasse hoje, eu saberia que consegui realizar algo que, para mim, está acima de muitas outras conquistas: dei orgulho aos meus pais.

Talvez fosse isso que estava preso em minha garganta desde o início da viagem.

Diante da Torre Eiffel, naquele instante, tudo veio de uma vez: meus pais, minha casa, os anos de faculdade, as horas no transporte público, meu primeiro avião, a costureira, o casaco e aquele menino que um dia sequer imaginou que estaria ali.

O filme inteiro passou diante de mim.

E eu chorei.

Ainda hoje, quando conto essa história, meus olhos se enchem de lágrimas.

Talvez eu ainda não tenha compreendido completamente tudo o que aquela viagem significou.

Mas agora compreendo um pouco melhor por que aquele casaco me emociona tanto.

Ele não serviu apenas para me proteger do frio europeu.

De alguma maneira, carregou comigo toda a distância que percorri para chegar até lá.