Memorial
Uma crônica sobre memória, verdade e permanência

Quando as circunstâncias permitem, acessamos memórias esquecidas no fundo escuro do túnel do tempo.

Veríssimo estava emocionalmente abalado pelo estresse de participar, como parte, de uma audiência da Justiça do Trabalho. A sessão ocorrera em uma pequena sala, com cadeiras e uma mesa compartilhada entre as partes, separadas, por proteção e precaução, por uma placa de vidro que isolava acusados e acusadores. À sua frente estavam os dois advogados da acusação; um pouco à direita, sentava-se a acusadora — a quem ele decidira não olhar nem dirigir qualquer atenção. Ao seu lado estava o advogado de defesa e, um pouco mais distante, à esquerda, o juiz que julgaria a acusação movida contra ele em uma ação trabalhista.

Horas depois, já na segurança do apartamento onde morava, Veríssimo sentiu um cansaço físico profundo e um esgotamento mental intenso. Durante uma reunião por vídeo, alguém chegou a comentar que seu rosto estava avermelhado. Decidiu deitar-se para aliviar a tensão. Passado algum tempo, retomou as atividades e sentou-se na poltrona do escritório, permanecendo ali em silêncio, à procura de paz.

Nesse estado de introspecção, procurou meditar, afastando-se dos pensamentos e de tudo o que havia acontecido poucas horas antes. Foi então que, nesse espaço de quietude, surgiu uma memória distante no espaço e no tempo, jamais acessada novamente por ele. Veríssimo permaneceu em meditação. O lampejo passou. Não lhe deu importância. Voltou a se concentrar no momento presente.

Depois desse exercício mental, levantou-se e foi para o seu canto da escrita: uma cadeira simples e uma escrivaninha. Sentou-se para escrever, como fazia todos os dias, sem tema pré-definido. Apenas a caneta BIC de tinta azul e a folha A4 branca, sem pauta.

Curiosamente, no instante em que começou a escrever, tentou recuperar aquela memória que surgira durante a meditação, mas ela se tornara inacessível. Queria lembrar, mas não conseguia. Decidiu, então, continuar escrevendo — disse a si mesmo que, mais adiante no texto, o fato retornaria. Sentiu um leve remorso por ter esquecido e uma insegurança discreta. Forçou a memória, mas a lembrança permanecia oculta.

Escrever fazia parte de sua vida cotidiana. Tornara-se, para ele, uma atividade quase mística: ao escrever, penetrava em mundos inexplicáveis, porém carregados de significado, distantes do cotidiano regido pela razão e por ações calculadas.

Veríssimo pausou. Permaneceu alguns segundos em silêncio. Respirou, concentrando a atenção no ar frio que entrava lentamente pelas narinas e, sem perder o foco, acompanhou o ar quente que saía. Foi nesse estado de pausa que, enfim, a lembrança voltou.

Ele estava no Rio de Janeiro. A cena devia ter ocorrido no fim da década de 1970. Tratava-se de um episódio vivido durante um trabalho de pesquisa de mercado. Caminhava pelas ruas abordando pessoas para responder a questionários sobre política ou preferências de consumo. Na época, cursava Sociologia na PUC-Rio, e aquela atividade fazia parte de uma disciplina ligada ao estudo do consumo. Com o tempo, transformara-se em trabalho remunerado, exercido em horários flexíveis, o que lhe permitia frequentar as aulas sem restrições. Podia trabalhar quando quisesse, sendo pago por isso. Foi assim que conseguiu fazer a faculdade.

Recebia tarefas de uma agência de pesquisa e saía caminhando, procurando pessoas de determinada faixa etária, homens ou mulheres, moradores de certos bairros. Ao encontrá-las, convidava-as a responder a um questionário.

Certa vez, caminhando por um bairro que acreditava ter sido a Tijuca, tocou a campainha de um prédio e começou pelo primeiro andar. No primeiro apartamento, uma voz feminina atendeu. Ele se apresentou e perguntou se poderia responder a uma pesquisa. Ela disse que sim, que morava no primeiro andar e que ele poderia subir — jogaria pela janela a chave da portaria.

Veríssimo achou estranho. Afastou-se um pouco e olhou para cima. Imediatamente, uma moça se debruçou na janela; seus cabelos longos penderam para fora, e ela lançou a chave, que caiu no chão ao seu lado.

Ainda surpreso com a situação sui generis, abriu o portão e entrou. O saguão era grande e escuro. Como o apartamento ficava no primeiro andar, procurou logo a escada e começou a subir, tomado por certo receio. O corredor também estava na penumbra. Olhava de um lado para o outro quando, um pouco adiante, uma porta se abriu, inundando o espaço de luz.

O que viu foi difícil de descrever. A moça estava à porta, e a luz fazia com que sua roupa se tornasse transparente aos seus olhos, como se estivesse nua. Atônito, caminhou em sua direção. Ela o cumprimentou, apertou-lhe a mão e o puxou para dentro do apartamento.

Os pesquisadores eram orientados a permanecer do lado de fora das residências. Naquele caso, porém, apesar da estranheza da situação, o raciocínio de Veríssimo pareceu entrar em suspensão, e ele se deixou conduzir para aquele território inesperado de magia e sensualidade.

Ela levou-o à sala de estar, convidou-o a sentar e sentou-se ao seu lado, encostando-se nele. Veríssimo percebeu que ela usava apenas roupas íntimas, cobertas por uma camisola transparente. As pernas dela tocavam as suas. Guiado pela prudência e pelo respeito, iniciou a pesquisa, atendo-se exclusivamente ao questionário. Estava, sim, chocado pela situação, mas absolutamente distante de qualquer gesto de importunação ou agressão.

Entre uma pergunta e outra, perguntava-se qual seria a intenção daquela moça ao criar tal cenário. Foi então que ouviu um ruído vindo da cozinha. Poderia ser uma mãe, uma empregada. Ela não estava sozinha. Se a intenção fora seduzi-lo — uma fantasia que talvez lhe pertencesse —, ela se desfez diante do respeito de Veríssimo por ela e pelo caráter do trabalho que realizava.

Foi uma experiência enriquecedora. O mundo lhe pareceu, naquele instante, imprevisível. E talvez a única postura possível fosse respeitar tudo e todos ao redor, sustentado por valores como honestidade, integridade, respeito, responsabilidade, empatia e justiça.

A ação fraudulenta vivida no presente, tantos anos depois, mexera profundamente com ele. Como se o tivesse levado a buscar, quase cinquenta anos atrás, a confirmação silenciosa dos princípios que seguia tentando honrar até agora.