Não fiz 80 anos assim, de repente. Parodiando Simone de Beauvoir, “a vida aproveitou que eu estava distraído, vivendo, e passou batida”. Mas me ensinou muito no caminho; só não me ensinou a não fazer nada. Por isso, sou um idoso ativo — até porque o compromisso me fascina. Seja um compromisso maior, como conseguir o espaço do Teatro João Caetano para acomodar mil colegas do INPI (*), seja montar um jantar de aniversário para dez pessoas.
Também escrevo semanalmente (e já publiquei um livro) em mais de um jornal, trabalho todos os dias da semana, presencialmente: gosto de estruturas, conexões. Propósito.
Sou marido, pai, avô de dois meninos e uma menina, e tenho uma irmã e um irmão, cunhados, sobrinhos, primos, todos uns queridos que o meu coração aprova; tenho ainda alguns amigos, bastantes colegas, muitos conhecidos e oitenta mil seguidores no TikTok. Mas o mais difícil nessa teia de afetos tem sido lidar com as perdas. Calculo que, desde o primeiro vizinho de prédio que morreu de enfarte, na remota Lisboa de 1956, até as mortes recentes, devo ter perdido cerca de 200 pessoas próximas.
Como pessoa, sou organicamente bem-humorado e estatisticamente feliz. Já no fazer, tanto por vocação quanto por destino, sou “multimídia”. Comecei há mais de 50 anos, na Esso, acompanhando o Repórter Esso, na velha TV Tupi. Em paralelo, fui professor de Introdução ao Marketing da primeira turma da ESPM no Rio.
Depois, a gerência de marcas de cigarro na Cia. Souza Cruz (Continental, Minister, Hollywood, Hilton e Carlton). Experiências novas, acompanhando filmagens publicitárias, em contato com as maiores e melhores agências de propaganda do Brasil à época: MPM, Thompson, McCann-Erickson, DPZ, Salles/Inter-Americana, Standard, Norton e VS-Escala.
A seguir, a fascinante experiência de trabalhar em jornais: primeiro, e por doze anos, na Gazeta Mercantil, então o maior veículo de economia da América Latina. Já no início deste século, ocupei a diretoria institucional do Jornal do Brasil por formidáveis dez anos.
Em 2013, encerrou-se este meu ciclo funcional na imprensa, mas não na comunicação. Fui para a Secretaria Estadual de Turismo do RJ até 2018 e, no ano seguinte, ingressei no INPI (*), o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Aqui, participo de tudo o que envolve o registro de patentes, marcas, indicações geográficas e desenhos industriais.
No capítulo escolaridade, sou formado pela Faculdade Nacional de Direito (Largo do Caco) e possuo certificado em Ciências Políticas, obtido em Paris. Tenho também diploma da Aliança Francesa, igualmente em Paris. Traduzi três livros do francês para o português. Sou pintor bissexto e colaborei com crônicas sobre assuntos diversos para o jornal Correio do Paraná, para a Revista Nacional, para a Revista da Ponte Aérea e para a Revista Domingo, do Jornal do Brasil.
Publiquei artigos e entrevistas sobre gastronomia e vinho nas revistas Gourmet, Gula, Playboy, By Itaipava e em alguns sites. Ao todo, são cerca de três mil textos publicados. Além disso, posto com frequência matérias e conteúdos em áudio e vídeo nas mídias sociais — sendo que apenas no TikTok tenho mais de 80 mil seguidores.
Sou também — e pela segunda vez — vice-presidente do Conselho de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro, membro do Conselho da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria RJ e embaixador do Turismo do Rio de Janeiro. Todas atividades puramente institucionais.
Para este ano de 2026, ainda pretendo lançar um segundo livro, intitulado “Vinho mesmo para quem não bebe vinho”. Ou seja, em vez do clássico passo a passo para iniciantes, ou das tradicionais considerações sobre o “terroir”, os tipos de uva e as características sensoriais, vou focar no vinho como um dos elementos que sempre esteve ao lado das civilizações — assim como o linho, o trigo e o azeite — desde a mais remota Antiguidade.
Vou parar um dia e ficar de papo para o ar? Não sei. Não creio. Só que, ao contrário de quando eu era jovem, quando havia urgência, hoje há continuidade. Prefiro a metáfora do poeta gaúcho Mário Quintana, em que o relógio da sala pergunta ao relógio da cozinha: “que horas são?”, aos digitais que marcam átimos.
E, se a “fala do corpo” perdeu agilidade, ganhou linguagem. Acredito em Deus, acredito no bom destino, na força do pensamento positivo.
Quando chegar o momento da partida (sem pressa), já tenho o epitáfio pronto: já?



