Reflexões sobre a mente, o nascimento e a esperança

Umbilical

“Toda mente começa respirando.”

Logo cedo, na manhã daquela sexta-feira, surgiram em minha mente perguntas que pareciam admitir respostas simples, suficientes para esclarecer todas as minhas dúvidas.

Respostas simples funcionam bem para perguntas simples, mas não para questões metafísicas, filosóficas e existenciais.

Todos sabemos o que desejamos. Desejamos um livro, uma viagem, uma amizade, um reencontro, uma casa, uma vida mais tranquila. Mas, quando se pergunta de onde vem esse movimento interior, a resposta deixa de ser evidente.

Continuei escrevendo.

À medida que a caneta avançava sobre a folha branca, fui percebendo que cada desejo parecia esconder outro ainda mais antigo. Como quem desce uma escada escavada na própria consciência, eu ia abandonando as vontades mais sofisticadas para encontrar aquelas que existiam antes delas.

Voltei muito no tempo.
Voltei tanto que cheguei ao nascimento.

Durante aproximadamente nove meses, o ser humano vive numa condição que jamais voltará a experimentar. Não conhece a luz. Não conhece o frio. Não conhece a distância. Não conhece sequer o peso do próprio corpo. Flutua protegido pelo líquido amniótico enquanto recebe, silenciosamente, tudo o que necessita através do cordão umbilical.

Não há escolha.
Não há esforço.
Não há comparação.
A vida simplesmente acontece.

Então chega o instante da ruptura.

O cordão é interrompido. Os pulmões, que nunca haviam trabalhado, precisam aprender a respirar em poucos segundos. Aquele primeiro impulso de ar talvez seja a primeira grande transformação que experimentamos. Pela primeira vez, alguma coisa depende de nós.

Pouco depois vem outra descoberta.

A fome.

Já não basta existir. É preciso buscar alimento. O recém-nascido ainda não conhece palavras, mas conhece a ausência. Chora. É acolhido. Alimenta-se. Descansa.

Talvez aí esteja uma das primeiras experiências da mente.

Não uma ideia.

Uma experiência.

Uma percepção de que existe um estado de desconforto e outro de plenitude. E, entre ambos, um movimento. Talvez seja esse movimento que, muitos anos mais tarde, chamaremos de desejo.

À medida que crescemos, os objetos mudam, mas a estrutura permanece. A fome transforma-se em curiosidade. O colo converte-se em amizade. A necessidade de proteção torna-se busca por pertencimento. Mais tarde, chamamos tudo isso de realização, sucesso, amor, conhecimento ou espiritualidade.

Mas talvez continuemos procurando, sob nomes diferentes, aquela antiga sensação de completude que um dia experimentamos sem sequer saber que existíamos.

É então que a mente começa a comparar. Compara o que vive com o que imagina. Compara o presente com uma possibilidade melhor. E é justamente dessa comparação que nasce quase toda a nossa atividade mental.

Pensar talvez seja isso: construir pontes entre aquilo que somos e aquilo que acreditamos poder ser.

Enquanto escrevia essas ideias, ocorreu-me que passamos a vida inteira educando nossos desejos. Alguns amadurecem. Outros nos escravizam. Alguns nos elevam. Outros nos distraem.

Controlar os desejos talvez nunca tenha significado eliminá-los. Talvez signifique compreendê-los. Descobrir de onde vieram. Entender por que surgiram. Perceber o que realmente pertence à nossa natureza e o que foi apenas acumulado pelo caminho.

Quando compreendemos isso, alguma serenidade aparece. A mente deixa de correr atrás de tudo. Passa a escolher.

E escolher talvez seja uma das formas mais profundas de liberdade.

Terminei o manuscrito sem imaginar que o próprio dia ainda escreveria seu último parágrafo.

À noite, Fátima e eu iríamos sair para jantar quando, momentos antes, recebi uma mensagem pelo WhatsApp. Era minha prima Fernanda, querendo combinar um encontro:

“Estão por aí? Já têm programa para hoje? Estávamos pensando em sair para comer alguma coisa em algum lugar.”

E respondi na hora:

“Bora para a Bráz?”

Fernanda nem duvidou: “Bora.”

A Bráz é uma pizzaria de que gostamos muito. Somos sempre bem recebidos, e quase todos os garçons e garçonetes já se tornaram nossos amigos.

Lá fomos nós nos encontrar com minha prima Fernanda e seu marido, Eduardo. Chegamos alguns minutos atrasados. A pizzaria estava cheia, como de costume, abarrotada de pessoas na parte de fora e com todas as mesas ocupadas.

Em pouco tempo, porém, conseguimos nosso lugar. Sentamo-nos e, depois de cumprimentar os garçons e pedir nossas bebidas, começamos a conversar.

A conversa seguiu leve, entre lembranças, projetos e o prazer simples de compartilhar uma boa pizza.

Então veio a notícia.

Fernanda estava grávida.
Era uma menina.

Por um instante, tudo aquilo que eu escrevera durante a manhã adquiriu um significado diferente. Passei horas refletindo sobre o primeiro sopro de vida, sobre o cordão umbilical, sobre o início da consciência, e agora estava diante de um casal que acabava de nos anunciar exatamente isso: uma nova existência iniciava silenciosamente a sua própria história.

Sorri ao perceber a delicadeza daquela coincidência.

Enquanto eu procurava, pela reflexão, reencontrar o começo da vida, a própria vida sentava-se à nossa mesa para dizer que estava recomeçando.

Ainda não sabemos o nome dessa criança. Ainda não conhecemos seu rosto. Ela ainda não respirou o primeiro ar, não abriu os olhos para o mundo nem descobriu o calor de um abraço.

Mas já desperta algo extraordinário:

a esperança.

Toda criança que chega lembra aos adultos que o mundo ainda acredita em si mesmo. Cada nascimento devolve à humanidade uma confiança que, às vezes, os dias difíceis tentam esconder.

Naquela noite, Fernanda e Eduardo talvez imaginassem estar apenas compartilhando uma notícia de família. Na verdade, ofereceram muito mais do que isso.

Recordaram-nos que a vida nunca deixa de começar. Que toda consciência um dia respirou pela primeira vez. Que todo pensamento já foi apenas uma possibilidade.

E que, antes de qualquer sonho, antes de qualquer palavra e antes mesmo do primeiro desejo, existiu apenas um pequeno coração aprendendo, em silêncio, o ritmo da própria existência.

Saí daquele encontro com a sensação de que meu manuscrito permanecia incompleto. Não por lhe faltar uma conclusão, mas porque a vida, com sua discrição habitual, havia decidido escrevê-la por mim.

À Fernanda e ao Eduardo

Fica o meu abraço mais afetuoso. Que vivam plenamente essa espera, porque ela já é, em si mesma, uma forma de nascimento.

Há crianças que chegam ao mundo no dia do parto; outras começam a transformar a vida dos pais no exato instante em que anunciam, com um sorriso, que estão a caminho.

E talvez seja esse o primeiro milagre da existência: antes mesmo de nascer, uma nova vida já ensina aos que a amam que o futuro pode, outra vez, ser motivo de esperança.