Conheci Inalma e dela me encantei. Sua história é tão igual a tantas outras e, ao mesmo tempo, tão singular, que ecoa o verso de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina: somos muitos e, ainda assim, únicos nas marcas que carregamos — e, entre elas, o nome é uma das primeiras.

Inalma nasceu na Paraíba, em uma família matriarcal onde o ato de nomear era quase um rito de criação. Sua mãe, guardiã dessa tradição, entrelaçava sons, afetos e histórias para dar origem aos nomes das crianças da família. De José surgiam variações múltiplas: Josenildo, Josildo, Josinaldo, Josivaldo, Josivânia, Josilma, Josilda. De Edmundo, lá vinham Ednalda, Edmilda, Edmalda. Todos unidos pela história dos nomes, em que novas combinações floresciam. Nomear não era apenas identificar: era inaugurar uma existência.

Quando chegou a vez de Inalma, o gesto foi ainda mais especial. A ideia inicial era unir pedaços dos nomes dos pais: a mãe se chamava Maria, e o pai se chamava Inácio. Juntavam-se as sílabas para nomear a menina — Iná, do pai, e Ma, da mãe — formando “Ináma”. Mas faltava algo, faltava vida, dizia sua mãe. Então acrescentou uma letra, um sopro: o “L”. E assim nasceu Inalma. Não apenas um nome, mas um convite à interioridade, àquilo que pulsa por dentro.

Desde pequena, Inalma demonstrava curiosidade pelo próprio nome. Queria saber o que ele dizia sobre si, o que escondia, o que revelava. Procurou em livros de nomes, fez perguntas, insistiu. Mas foi na escola, no processo de alfabetização, que algo essencial aconteceu. Ao aprender sobre prefixos e sufixos, começou a desmontar e remontar palavras e, entre elas, o próprio nome.

Ali, Inalma descobriu que seu nome também podia ser lido, interpretado, sentido. Percebeu o “in” como entrada, movimento para dentro, e “alma” como esse território invisível de pensamentos, emoções e desejos. Pela alfabetização, não aprendeu apenas a ler o mundo: aprendeu a ler a si mesma.

Esse é o poder do nome na infância: quando a criança reconhece, escreve e compreende o próprio nome, ela não está apenas decodificando letras. Está afirmando identidade, pertencimento e existência. O nome é, muitas vezes, a primeira palavra que a criança lê com sentido pleno — porque é dela, porque a representa.

Inalma cresceu levando consigo essa descoberta. Saiu do sertão da Paraíba e veio para o cerrado mineiro, onde se tornou professora alfabetizadora e multiplicadora do Pacto Mineiro pela Alfabetização. Em sala de aula, faz do nome o ponto de partida: cada criança começa aprendendo a ler e escrever aquilo que mais lhe pertence — seu próprio nome. E, nesse gesto simples, inaugura-se algo profundo: o reconhecimento de si no mundo das palavras.

Inspirada por histórias como Alma, de Juana Martinez-Neal, Inalma entende que identidade também se constrói narrando origens e significados. Por isso, ela escuta os nomes, valoriza suas histórias e convida cada criança a descobrir o que existe dentro deles.

Hoje, aos 50 anos, seu próprio nome continua sendo um convite: entrar na alma, olhar para dentro, reconhecer-se. E, talvez, seja esse o maior aprendizado que ela oferece, reafirmando que alfabetizar não é apenas ensinar letras, mas ajudar cada criança a ler a si mesma, começando pelo próprio nome, por sua história — compreendendo que ler o mundo precede a leitura da palavra, e esta continua lendo aquele, como ensina Paulo Freire.

Com Inalma, relembrei a canção “Alma”, composta por Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes, interpretada por Zélia Duncan, que celebra a conexão humana e a cura emocional por meio de uma abordagem sensorial e simples. Inalma nos acolhe em sua intimidade, na revelação de sua essência, multiplicando a leveza da alma — na epiderme da alma.