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Os Coquinhos de Vinícius

Todas as manhãs, Vinícius, na época com 3 anos, ia com sua Dedé tomar sol e brincar na antiga Pracinha São José, em Bom Despacho.

Nesses passeios, o lugar predileto era à sombra da velha Palmeira Imperial. Ele pisava na terra, corria para lá e para cá, brincava de catar coquinhos, quebrava-os, comia a castanha e transformava-os em boizinhos ou carrinhos, tudo o que a imaginação criava e mais um pouco com a mediação lúdica da Dedé. A pracinha, enquanto espaço público, se constituía num lugar de brincar em que o cuidar e educar se dão além das salas de aula.

Essas aventuras lembram um depoimento do professor e escritor bom-despachense Tadeu Araújo Teixeira sobre a mesma Pracinha, nos idos da década de 70, quando ele era criança:

a Pracinha era “Nosso Mineirão das peladas. Nos finais de semana, a infância saía qual bando de maritacas e enchia de alegria a praça com pião, bola de gude e esconde-esconde” (Jornal IBOM, 11/6/23).

Essa praça tem valor afetivo para Vinícius. Ali, brincou, fez descobertas sobre formigas, joaninhas, coquinhos e castanhas, desenvolveu sua imaginação, sorriu, criou laços com outras crianças e as brincadeiras se tornaram coletivas. Com o passar do tempo, as brincadeiras iam se diversificando e tornando-se mais complexas e desafiadoras. As pessoas naquela saudosa pracinha jogavam bola, andavam de skate e corriam para lá e para cá. Constituiu-se um genuíno espaço público de encontro e liberdade!

Após 18 anos, retorno à praça, agora renomeada Praça Antônio Leite, em homenagem ao querido ex-prefeito da cidade, Antônio Leite. Reencontro a velha Palmeira e seus saborosos coquinhos, mas algo no espaço mudou. Grades aqui e ali. Transformou-se em um parquinho “privado”, para poucos e privilegiados, cheio de regras, com piso emborrachado e jogos desenhados. Na placa, o aviso: “Proibido isso e aquilo”. Ainda se pode encontrar um coquinho ou outro pelo piso emborrachado, lembrando que ali já foi seu lugar de autoridade.

Diante desse novo arranjo, reflito sobre os impactos dessas transformações na democratização do espaço. Em nome da segurança, reduzimos o espaço livre e limitamos a criação autônoma da criança, o desenvolvimento de sua imaginação e criatividade. A concepção de controle por grades e o monitoramento rígido de movimentos e corpos impõem barreiras e restringem o público diverso e plural.

Criaram até um grupo de WhatsApp privado “Pracinha São José”, que para participar tem que ser aceito pelos “administradores”, que inseriram 3 post, todos com o símbolo de Proibido isso e aquilo. Estes sinais já dizem muito sobre o novo arranjo da Praça Antônio Leite, mas… pouco da pracinha São José de 20 anos atrás.

Saudades do tempo em que as grades não cercavam a nossa história e o brincar era um direito acessível a todas as pessoas, sem distinção. Saudades de quando meu filho Vinícius chegava em casa saltitando de alegria, com alguns coquinhos na mão, relatando suas experiências vivenciadas no seu lugar preferido de estar, a Pracinha São José.

Fontes / créditos das imagens e referências:
• Arquivo pessoal — registro da palmeira na atual Praça Antônio Leite (16/12/2025).
• IBOM — “Lendárias praças de Bom Despacho” (11/06/2023). Acesso 16/12/2025.
• minasgerais.com.br — Praça Antônio Leite. Acesso 16/12/2025.
• @bardotonhaobd — Museu Virtual de Bom Despacho. Registro fotográfico antigo da Praça São José.